15 de abril de 2018 às 02:00

Manual de veículos fica maior, mais indecifrável e dá lugar a aplicativos

Cinquenta anos atrás, o manual de bordo de um carro tinha cerca de 50 páginas. Hoje, os guias de veículos feitos no Brasil têm mais de 350 páginas, todas repletas de termos técnicos que mudam de marca para marca.

MARCO ANTONIO ROCHA
SÃO PAULO

Cinquenta anos atrás, o manual de bordo de um carro tinha cerca de 50 páginas. Hoje, os guias de veículos feitos no Brasil têm mais de 350 páginas, todas repletas de termos técnicos que mudam de marca para marca.

Os avanços tecnológicos encorparam os manuais, que passaram a trazer também, além de dados técnicos sobre o funcionamento do modelo, informações sobre segurança e emissão de poluentes.

"As explicações são confusas, as empresas deveriam ter mais cuidado nessa comunicação com leigos, e quem tem tempo e paciência para ler esses calhamaços? Muitas vezes procuro direto na internet, está tudo lá", critica o analista de sistemas Alexandre Curvello dos Santos, 49.

Ele conta que enfrentou dificuldades quando trocou seu antigo Ford Focus por um Nissan Versa e buscou orientações sobre como configurar o sistema bluetooth do carro.

Curvello demorou para encontrar as instruções no manual e só conseguiu fazer a conexão com o telefone após consultar um tutorial disponível na internet.

A falta de padronização costuma gerar muitas dúvidas entre os motoristas.

A Peugeot divulga a capacidade do porta-malas do hatch 308 considerando, literalmente, litros de água. É um padrão diferente da norma alemã VDA, que consiste em empilhar tijolos de isopor semelhantes a caixas de leite longa vida até que o espaço seja totalmente ocupado, como no Volkswagen Golf.

Nas fichas técnicas dos modelos vendidos pela Ford, o torque dos motores é expresso em Nm (newton-metro). Na Fiat, em kgfm (quilograma-força por metro).

Consultada, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) disse por meio de nota que os manuais são elaborados de acordo com regras internas dos próprios fabricantes, e declarou-se incapaz de dizer como as instruções poderiam se tornar mais acessíveis aos usuários.

Líder em vendas no mercado brasileiro, a Chevrolet argumenta que o manual é pouco usado e serve mais para dúvidas específicas, em geral relacionadas à manutenção, segundo pesquisas feitas com seus clientes.

"A confecção dos manuais de bordo envolve um time de especialistas de diversas áreas, os textos seguem obrigatoriamente uma linguagem acessível ao usuário", afirma Renato Bibo, gerente de pós-vendas da Chevrolet.

Contudo, basta uma consulta aos manuais de carros vendidos no Brasil para encontrar estrangeirismos, siglas e instruções complexas.

Para facilitar a compreensão, as marcas investem em tecnologia. A Volkswagen lançou, em parceria com a IBM, um aplicativo que usa inteligência artificial para responder dúvidas.

Se uma luz de advertência surgir no painel do sedã Virtus, o motorista pode fazer uma foto do problema e pedir para o aplicativo do sistema dar um veredito, sem intervenção humana.

Na Chevrolet, o sistema On Star permite fazer consultas a uma central de atendimento para solicitar informações técnicas do automóvel.

A Citroën informa que atualizará seu aplicativo no segundo semestre e será possível buscar termos no manual digital por palavras-chave.

Mas nem tudo pode ser simplificado, avisa. "Tópicos mais simples têm textos menores, mas há aqueles complexos, como a configuração da central multimídia. Não tem jeito, é quase um manual dentro do manual", diz Fábio Alves, gerente de produto da marca no Brasil.

Segundo Alves, o trabalho é longo: a confecção do manual começa nove meses antes de o carro ser lançado.

Fonte: FOLHA

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