09 de junho de 2018 às 02:00

Médico brasileiro ajudou a recontar número de mortos em furacão em Porto Rico

O que leva um médico bem-sucedido de 40 anos, ortopedista no Hospital Israelita Albert Einstein de São Paulo, a dar uma guinada na carreira? Para Fábio de Castro Jorge Racy, duas semanas no Haiti.

O que leva um médico bem-sucedido de 40 anos, ortopedista no Hospital Israelita Albert Einstein de São Paulo, a dar uma guinada na carreira? Para Fábio de Castro Jorge Racy, duas semanas no Haiti.

Foi por causa de Porto Rico, entretanto, que Racy, hoje com 49 anos, viu um trabalho seu ganhar repercussão internacional. Ele é um dos 15 autores do artigo científico que lançou uma pá de cal sobre as estimativas oficiais de mortes na ilha após o furacão Maria.

O governo desse Estado associado dos EUA anunciou que a tempestade tropical de 20 de setembro de 2017 havia feito 64 vítimas. O estudo de Racy e colegas no New England Journal of Medicine de 29 de maio concluiu que foram, mais provavelmente, 4.645 mortos.

O número, 72 vezes maior, correu o mundo. A onda de indignação ganhou impacto por rebentar na véspera, por assim dizer, da data que abre nova temporada de furacões no Atlântico Norte, 1º de junho.

O ortopedista brasileiro ficou sabendo da pesquisa num grupo de estudos da Faculdade de Saúde Pública de Harvard. Ele faz em Boston um curso de especialização em medicina de desastres, no hospital Beth Israel Deaconess Medical Center, também ligado à universidade.

Em Porto Rico, Racy ficou duas semanas. Era um dos dez enviados da parte continental dos EUA para coordenar as equipes locais que aplicaram 3.299 questionários em moradias de uma centena de “barrios”, como são chamadas as 900 unidades administrativas da ilha.

O brasileiro atribui sua escolha para participar da equipe por ser fluente em castelhano. Aprendeu a língua em Sevilha, Espanha, onde fez outro curso para aprofundar-se na paixão profissional â?”os desastresâ?” que contraiu em 2010, pouco antes de completar 41 anos.

“O Haiti mudou minha vida”, conta. Após o terremoto de mais de 7 graus que arrasou esse outro país caribenho, ele se apresentou como voluntário para uma das três missões de socorro que o Einstein enviaria ao local. Embarcou na segunda leva.

Por intermédio do Itamaraty, engajou-se num acampamento “superorganizado” que a Iniciativa Humanitária Harvard havia montado em Fonds-Parisien, a poucos quilômetros da fronteira do Haiti com a República Dominicana. Ali trabalhou por duas semanas, o bastante para reorientar sua trajetória na medicina.

Estava na melhor fase da carreira, “bem equilibrado”. Trabalhava no pronto-socorro do Einstein, na clínica ortopédica paulistana Ortocity e em consultório próprio, como especialistas em joelho e quadril. Usava acupuntura para mitigar a dor dos pacientes.

“Sempre tive a ideia de fazer medicina humanitária”, diz. Aos 40 anos, ainda solteiro e sem filhos, deu-se conta naquele momento: “Ou fazia a mudança ou não faria mais”.

Um ano depois partiu para o primeiro curso na área de medicina de desastres. Passou a estudar temas como resposta a desastres e gerenciamento de crises.

A partir de 2014 organizou simpósios sobre catástrofes no Einstein, com participação de Defesa Civil, Cruz Vermelha, Corpo de Bombeiros e outras corporações. Neste ano, em maio, o curso envolveu exercício simulado no estádio do Morumbi.

A etapa seguinte de especialização foi em Sevilha, já casado com a enfermeira Ana Luiza Tartuce, que encarou um mestrado em ajuda humanitária na cidade espanhola.

O curso, mais prático que teórico, os levou para atividades de campo em Tan-Tan, localidade no sudoeste de Marrocos. Racy teve então sua prova de fogo: operar um beduíno que tivera parte do pé destruído, mais de 24 horas antes, por uma mina terrestre.

Só não conseguiu salvar o hálux (dedão), que terminou amputado. Contra as probabilidades, pelo tempo decorrido entre acidente e atendimento, não houve infecção.

Nesse meio tempo Racy já fechara o consultório, desligara-se da Ortocity e obtivera uma licença remunerada do Einstein. O plano era passar dois anos fora do Brasil, mergulhados na medicina de desastres, e de Sevilha rumaram para Boston. Com ele e Ana seguiu viagem a golden retriever Tina.

Em agosto eles voltam ao Brasil, onde Racy pensa retomar a atividade de ortopedista, mas sem tirar o pé da medicina de desastres. Ele vê muito campo para a especialidade no Brasil. “Quem não sabe que em janeiro haverá algum deslizamento de terra na região serrana do Rio de Janeiro?” â?”pergunta.

Antes de voltar a São Paulo, Racy e Ana Luiza já fizeram planos para as “férias” de julho: trabalhar no campo de refugiados Zaatari da Jordânia, onde se abrigam cerca de 80 mil sírios em fuga da guerra civil.

Fábio de Castro Jorge Racy, 49
É graduado em medicina pela Universidade de São Paulo (1984). Especializou-se em ortopedia na residência médica realizada no Instituto de Ortopedia e Traumatologia de Santa Catarina (1997). Trabalha desde 2008 no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Possui especialização em medicina de desastres (2011) no Beth Israel Deaconess Medical Center, ligado à Universidade Harvard, nos EUA

Fonte: FOLHA

comentários

Estúdio Ao Vivo